4.1.06

Tiago Mota Saraiva - CRÍTICA AO III VOLUME DA BIOGRAFIA DE CUNHAL

No Random Blog02:

NOTA PRÉVIA

Pelo Natal, recebi o último volume editado da Biografia de Álvaro Cunhal escrita por José Pacheco Pereira (JPP). O historiador do Abrupto, tem vindo ao longo dos anos a recolher inúmera informação para a construção da biografia de Álvaro Cunhal e da história do PCP, o que fica patente nos seus dois blogues Álvaro Cunhal uma Biografia Política - o blog do livro e Ensaios sobre o comunismo, e outros livros publicados. Embora me tenha lançado ao livro com alguma avidez, o final do ano apenas me foi permitindo ler uma centena das 748 páginas. Contudo nestas primeiras cem páginas o PCP já foi responsável pela morte de umas quantas pessoas, e é sobre isso que quero escrever:

A parcialidade e o rigor científico não são conceitos que se aniquilem em textos como o deste livro - com o cariz de ensaio académico. Quero com isto dizer que, o investigador quando inicia uma pesquisa sobre um determinado tema até pode partir (e às vezes ajuda) com uma ideia preconcebida daquilo que se quer provar. Ou seja, não me choca que JPP, quando se lhe pôs o problema da justificação de alguns desaparecimentos/mortes de militantes comunistas, tenha partido do pressuposto que teria sido o próprio partido a cometer os homicídios.
Neste aspecto a tese de JPP é clara e está patente numa das primeiras páginas do livro: "Algures, durante o ano que se seguiu à prisão de Cunhal, o núcleo restritíssimo de dirigentes que controlavam o PCP tomou a decisão de executar os militantes envolvidos nos casos que lhes pareciam mais graves de "traição" - pp. 60. A partir da enunciação da tese, JPP passa a descrever algumas mortes que atribui a decisões dos dirigentes do PCP então no activo, enunciando detalhadamente um conjunto de fontes e documentos que corroboram a sua tese.
Não me interessa questionar a veracidade da tese de JPP, pois estas não são as minhas áreas privilegiadas de investigação. O que quero questionar são as fontes que o historiador utiliza para a suportar. Um factor determinante para se chegar a uma tese com algum rigor científico no campo da história contemporânea, e o JPP sabê-lo-á melhor do que eu, é a capacidade de cruzar informação, fontes, testemmunhos e documentos de diferentes proveniências, para que a premissa da qual se partiu passe de "possibilidade" a "certeza". Na minha opinião esta tese não se encontra bem defendida.
JPP diz: "Uma análise mais rigorosa do que se conhece sobre os assassinatos e as tentativas de assassinato, ocorridos de 1950 a 1974, baseada nos documentos e nos testemunhos da época não permite dúvidas sobre a responsabilidade do PCP nesse actos."- pp. 63.
A fonte primária de JPP, são os documentos dos arquivos da PIDE que justificam plenamente a sua tese, na qual tem especial importância as "Memórias de um Inspector da PIDE" de Fernando Gouveia - que nas palavras do autor era um especialista a lidar com comunistas pela forma expedita e violenta como levava os interrogatórios. No interior do PCP o historiador encontrou documentos da época que revelavam preocupações relativamente a possíveis elementos afectos ao regime infiltrados nas células e na direcção do partido, mas nenhum documento em que se possa extrapolar para ter existido uma decisão por parte da direcção de assassinato de um qualquer suspeito de "traição".
Relativamente a ex-militantes do PCP, só os que aparecem citados em interrogatórios pela PIDE, é que assumem a responsabilidade do partido nos assassinatos. Outros ex-militantes, como Rui Perdigão, defendem a não veracidade da tese que JPP defende.
Ora de uma leitura atenta das fontes temos que, apenas nos documentos e testemunhos que passaram pelo crivo da polícia do antigo regime se pode encontrar referências à responsabilidade do PCP nas mortes enunciadas. Desta forma a tese de JPP, e mais uma vez refiro que o meu propósito não é contrapor com outra tese, aparece-nos documentada com fontes que, para além de serem pouco fidedignas (pois sabe-se que muitos documentos da PIDE eram apenas propaganda) não se conseguem cruzar com todos os outros testemunhos que o autor registou.

2 Commentários:

Blogger randomblog said...

O blogue chama-se Randomblog02 e não "Ramdomblog02".
Cumprimentos
Tiago Mota Saraiva

5/1/06  
Blogger Velha Guarda said...

Parece-me absolutamente delirante pensar que os autos de declarações prestadas pelos militantes presos, sob tortura, fossem afinal forjados pela PIDE a contar que fossem usados como propaganda um dia em que viesse a haver um 25 de Abril e se pudesse vir a aceder ao arquivo desses autos!...

5/1/06  

Enviar um comentário

<< Home